Beladona - Cap.I - A Janela
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Beladona – I – A Janela

dezembro 24, 2015

a janela - beladona

Beladona era apenas Beladona, tranquila e esfíngica. Sobre ela, a lua brilhava despreocupada, sem floreios, o vento a tocava com sutileza, desinteressado, o mundo não girava para o seu lado, nem as pessoas costumavam pronunciar o seu nome. Os animais, não sabiam nem mesmo quem era ela ou o que era ela, mas lá permaneciam. Ela tinha um charme peculiar, algo que, apesar de um simples lugar, a tornava acolhedora, única. As poucas ruas que traçavam um desenho desorganizado na cidade, eram largas nas principais e no centro e estreitas no subúrbio e no campo… sim, lá havia campo, haviam muitos campos. A cidade possuía muito verde quando o sol brilhava e aquecia o solo, mas mascarava-se em degrades de laranja, vermelho, amarelo e marrom quando apenas as lareiras conseguiam aquecer as casas. Também um lago azul que enchia o olhar de qualquer um que parasse para observá-lo, mas poucos notavam que em certos dias, aquele azul tinha mais cara de verde. Assim ela inspirava o espírito daqueles que gostavam de se aventurar, nadando ou pulando de cachoeiras, e a de Beladona nem era tão grande, mas queda valia a pena.

As montanhas que preenchiam o lado leste da cidade transformavam os últimos raios do sol, antes da chegada do crepúsculo, em um show de cores que cobriam brevemente parte do céu sobre ela. Caminhando dos campos que cercavam a cidade para o centro ou do centro para os campos, podia-se percorrer estradas graciosas, feitas de terra, mas cercadas por árvores que embelezavam o caminho, assim como uma vegetação colorida em certos trechos e em escalas de verde em outros, altas em certos trechos e rasteiras em outros. Uma bela visão, até mesmo nos invernos que cobriam Beladona com uma camada deslumbrante de branco.

Uma cidade inspiradora, discreta, mas como nos foi ensinado que onde há o bem há o mal, havia um pequeno segredo faiscando em Beladona, e o presságio de um mistério veio carregado pelos ventos do Norte e se dissipou entre as ruas durante uma certa noite.

Nas sombras se escondia uma besta feroz, em uma das ruas, em uma das casas, em um dos cômodos, em uma das pessoas, lá no fundo, ela permanecia adormecia, mas naquela noite fria de Dezembro, a besta se mexeu, despertando lentamente do seu sono, e o homem  sabia que ela estava despertando, pois sem jeito algum e suando frio, ele tremeu ao ajeitar o óculos sobre o nariz, engoliu a saliva com dificuldades, sentindo seu pomo-de-adão subir e descer, e até mesmo o ar ao seu redor alterou… aos poucos as cores se esvaiam, e o cenário, mal iluminado, foi preenchido com preto, branco e… escarlate.

A boca estava seca, em um reflexo ele amassou a folha do livro, perdendo a última palavra que lera. Sentiu o coração disparar, jogou a cabeça para trás e inclinou-a para a janela, e foi nesse momento que ele sentiu uma sede antiga, quase insaciável, e soube que havia um pequeno segredo faiscando em Beladona.

*

 –  “O arder do vento corta a simplicidade e as cores do agora, o cheiro de liberdade e o brilho do dia iluminam a escura outrora, e os rostos que antes aqui eram proibidos hoje sorriem, nada mais que o som de palavras aconchegantes, porém perturbadoras, uma queda sem fim e minhas lágrimas congelam e param, posso dizer que lhe salvei? Ou tu estás a me salvar?” – Pronunciou para si mesmo uma voz baixa dentro da sala mal iluminada. Uma, duas, três páginas viradas e então o livro foi fechado e descansou sobre a mesinha ao lado da poltrona.

Uma silhueta se movimentou dentro da sala, agachou sobre a mesa de centro e caminhou para a porta e desligou as luzes. De lá, avançou por um breve corredor até outra porta, essa maior e mais larga, mas não havia porta para fechar, apenas a passagem, marcada por um belo arco de tijolos expostos. A silhueta adentrou e aos poucos foi iluminada, um jeans azul escuro com aspecto surrado, uma camisa simples, branca e um pouco suja de algo indistinguível, uma barba rala sobre a pele morena, olhos verde-escuros profundos e exaustos. O homem sentou-se em uma cadeira que havia ali, apoiou-se na mesa, pois ali era a cozinha. Passou a mão sobre o rosto, suspirou e puxou um como d’água que descansava sobre a madeira escura. Deu algumas goladas longas e suspirou outra vez, Anton Barker estava cansado, tanto a mente quanto o corpo, mas sua noite ainda estava longe de terminar, pois como se o destino trabalhasse para provocar uma coincidência, ao toque do copo sobre a mesa, uma pequena figura apareceu à porta da cozinha.

–  Eu tive um pesadelo, papai – Amelia, pequena e amada filha daquele homem cansado. Ela vestia uma camiseta de mangas longas, pois estava frio. As meias iam até a canela e ficavam sobre a barra da calça moletom para que ela não subisse até os joelhos durante a noite. A menina coçou os olhos observando o pai com dificuldade, podia ser incômodo por ter recém acordado e dado de cara com a luz forte acesa ou talvez a franja que caia sobre a testa.

Ele exibiu um sorriso discreto, e sentiu um pouquinho de força e disposição vindos do seu interior. Levantou-se a pegou a criança no colo, a apertando contra seu corpo em um abraço carinhoso e aconchegante. Amelia agarrou forte no pescoço do pai, fechou a cara em uma mistura de prazer e irritação, sim, apreciando o abraço e odiando estar acordada ainda. Eles avançaram pelo breve corredor, subiram as escadas e entraram no quarto do final de outro corredor.

O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua que invadia pela janela. Anton deitou sua amada filha e a cobriu, com todo o cuidado do mundo, também se deitou ao lado dela, espremendo-se na ponta da cama. Ele fitou a janela e flagrou alguns dos galhos do cedro do jardim, uma árvore fina que lembrava um simples lápis.

– Vai dormir comigo, papai? – Perguntou ela com a voz trêmula, quase introvertida.

– Estou bastante cansado, querida. Mas vou ficar com você até que adormeça, o que acha?

A menina estava virada para o pai. Ela levou a pequenina mão e dedos até a face dele e acariciou.

– Eu gostaria – ela sorriu, e ele também.

Ela fechou os olhos, e ele acariciou a menina deslizando os dedos curvados sobre a face dela, puxou algumas mechas do cabelo para trás, com a ponta do dedo contornou a orelha dela e sentiu-se aquecido pelo amor que tinha por ela.

Não demorou para ela pegar no sono, e ele também, mas foi apenas por um breve momento. Anton despertou, sentindo que haviam se passado horas. Fitou Amelia em seu descanso inocente, suspirou e encarou o relógio em seu pulso, nem uma hora se passara até aquele momento. Ele calmamente se levantou, caminhou até a porta como se caminhasse sobre cascas de ovos ou folhas secas, evitando qualquer ruído que pudesse perturbar o sono da criança.

A porta ficou entreaberta.

Ele caminhou pelo corredor, parando na porta do meio, pois lá haviam três. A abriu tranquilamente, foi até a lateral da cama desarrumada e puxou o cobertor que estava embolado aos pés, o abriu e esticou sobre o corpo que ali descansava, o corpo de uma jovem moça de longos cabelos castanhos quase ferrugem, pele mais clara que a do pai, como a da mãe, lábios rosados e mergulhada em sonhos misteriosos. Ele ajeitou o cobertor sobre ela, garantindo que a filha mais velha não passasse frio durante a madrugada. Ele a observou por alguns instantes, e em sua mente pouco passava além da lembrança da falecida esposa.

“Yasmin, ela está cada dia mais parecida com você”, pensou ele.

Anton sentiu-se solitário, quando desviou o olhar e notou que a janela estava aberta. Caminhou até ela e a fechou, e por um momento, ao olhar de relance para o lado de fora, imaginou ter visto uma sombra se movendo. Mas já estava tarde, do lado de fora estava frio, tão frio, que aquilo pareceu improvável, e a ideia que estava precipitando em sua mente, logo se desfez. Ele se voltou para Hanna e sem perceber estava com outro sorriso frouxo nos lábios, aquele homem amava suas filhas como se nada no mundo, além delas, importasse… e para ele, nada nunca importou e nem importaria.

Ele saiu do quarto, sentiu o cansaço quando uma dor aguda nas costas o incomodou. Passou a mão sobre o rosto e sentiu a barba rala e áspera. Adentrou ao seu quarto, o primeiro do corredor, em frente ao parapeito da escada. Tirou a camisa e sentiu um calafrio percorrer sua espinha, abraçou a si mesmo. Abriu a porta do guarda-roupas e puxou uma camiseta limpa, também outras duas peças e uma toalha. Refletiu se estava se esquecendo de algo, fosse o que fosse, não se recordaria antes de entrar na ducha, e foi o que fez, acendeu a luz do banheiro, ligou a ducha e esperou um breve minuto até que a água aquecesse bem, então deixou que a água cobrisse todo seu corpo e relaxou.

Sob o chuveiro e a água quente que escorria sobre sua pele, ele chorou. Passou a mão na testa afastando o cabelo molhado, deslizou a mão sobre os olhos, misturando lágrimas e água, e tentou afastar a dor que a lembrança de sua falecida mulher ainda lhe trazia. Recordou-se de breves momentos aleatórios e felizes, e tentou confortar-se com eles. Ocupou a mente fazendo a barba, mesmo sabendo que repetiria aquilo pela manhã.

Sentindo-se descansado, ele se deitou. Nem o frio o incomodava tanto quanto o lado vazio da cama, ele sabia que teria que se acostumar, mas aquilo parecia longe de terminar. Anton mordeu os lábios, respirou fundo e fechou os olhos, uma lágrima fugiu pelo canto do olho esquerdo, arrastando a melancolia, o medo, a saudade… ele adormeceu, e enquanto sonhava lembrou-se do que havia esquecido, a luz da cozinha amanheceu acesa.

 

Beladona – Cap. I – A Janela
por Washington Albuquerque
Todos os direitos reservados – 2015.

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4 Comments

  • Reply Gaby Soncini dezembro 26, 2015 at 10:14 pm

    Venho agradecer sua presença e carinho em meu blog neste ano, e lhe desejar um feliz ano novo com muita paz, serenidade, inspiração e amor.
    Obrigada!

    Abraços!

    • Reply chilligrr janeiro 10, 2016 at 4:59 pm

      Ah Gaby, passei uma cara longe e respondo atrasado mesmo rs obg por tudo <3

  • Reply Na Garupa da Vespa dezembro 28, 2015 at 9:48 pm

    Não vejo a hora do próximo cap. Amei a descrição de cada detalhe, o fim me deu até um nó no peito…

    Você escreve muito bem!

    Feliz ano novo 🙂
    Beijos

    • Reply chilligrr janeiro 10, 2016 at 4:59 pm

      Yeeeeey! Logo tem mais, obrigado pelas palavras <3

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