O Nômade - Conto de Terror em Um Gole de Utopia
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O Nômade .I

fevereiro 5, 2016

Para acompanhar a leitura 😀

O Nômade
Parte I

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Minha respiração estava ofegante, as pernas tremiam dando sinal de que eu não aguentaria correr muito mais. O frio do subterrâneo se infiltrara em minha pele causando dores em todos os meus ossos. Ouvi os diversos passos se aproximando, carregando terror, sangue nos lábios, carne presa entre os dentes e um cheiro desgraçado de carniça. Os rosnados roucos e desesperados tornavam-se cada vez mais alto e furiosos. Tateei o chão em busca de qualquer objeto que pudesse servir como arma, proteção ou escape, o desespero mal deixava eu me concentrar, mas não demorou para meus dedos escorregarem sobre algo cortante, gélido e reconfortante naquela ocasião, um caco de vidro.

Eu estava sozinha em meio a quase total escuridão, imaginei que até os carniceiros me encontrarem daria tempo de correr para a escadaria de saída do metrô. Respirei fundo, ainda ouvindo os malditos avançando, então corri, e corri, corri o mais rápido que pude, com toda a força que me restava. A luz da saída estava próxima, avancei alguns metros e ela tornou-se mais forte, eu já podia ver o verde raso da vegetação que invadira aquela lugar durante os anos de abandono, assim como possuía a cidade toda.

A luz se intensificou, uma faísca de esperança acendeu em meu peito, mas quando virei o corredor, dei de frente com outro grupo de carniceiros que até então estavam em hiato, aguardando um estímulo, e eu fui o estímulo. Ao ouvirem meus passos e meu gemido diante do susto, eles despertaram, em uma crise louca e enraiveceram, tropeçaram um sobre o outro e avançaram em minha direção.

Apertei o caco de vidro em minhas mãos até sentir minha pele rasgando, com um sabor de medo e ódio entre os lábios, senti a morte repousando as mãos sobre meus ombros, pude até ver seu sorriso frouxo e inescrupuloso. Fitei as criaturas avançando, famintas, e pensei:

É assim que termina?

Levei o caco próximo ao meu pescoço, enquanto observava eles se aproximando, sabia que aquilo seria o fim, e eu preferia tirar a minha própria vida a ser transformada em uma daquelas criaturas grotescas. Suspirei e respirei fundo, e quando lancei o golpe contra mim mesma, com o primeiro monstro a poucos metros de mim, fui surpreendida quando a cabeça dele simplesmente se partiu ao meio, e um zumbido fino e quase imperceptível cantou próximo ao meu ouvido, o corpo desabou e escorregou até meus pés, formando uma poça de sangue enegrecido e malcheiroso. Em choque, observei o corpo imóvel diante de mim.

Meu coração disparou enquanto minha mente tentava digerir aquilo. Um assobio ecoou por todo o ambiente e a atenção de tudo e todos foi tomada por uma imagem estática sobre o topo da escada, uma silhueta. Ela se deslocou rápido, pulando sobre o corrimão, escorregando, e sumindo no meio do grupo de monstros. Logo pedaços de corpos e sangue começaram a ser arremessados para todos os lados. Um zumbido de lâmina cortando o ar tornou-se intenso, em questão de minuto o sol pontou sobre a escadaria, e seu raio cegou-me, levei o braço sobre os olhos, me protegendo e tentando enxergar o que estava acontecendo. Vi a silhueta de corpos sendo despedaçados com golpes brutais, o sangue amaldiçoado pintava as paredes como pinceladas despreocupadas e caóticas, o cheiro de podridão criou um misto estranho quando os ossos começaram a se partir, assim como o queimado do piso a cada vez que a lâmina deslizava por ele e rasgava um corpo ao meio. O guerreiro se esquivava de todos os golpes que lhe eram direcionados, suas vestes longas desenhavam uma dança deslumbrante no ar, com movimentos que pareciam suaves, destemidos e com graciosidade, e assim com  muita agilidade ele respondia em ataques fulminantes.

Gritos roucos dos monstros sendo eliminados ecoavam de forma seca e única, dando um ar de terror maior à cena.

Quando me dei conta, um silêncio repentino se instalou, o sol foi ofuscado e uma sombra parou à minha frente. Abaixei o braço e flagrei um nômade, vestido de um cachecol grosso, um casaco longo e escuro, com uma das mangas ausentes, em seu punho havia um tecido enrolado até o cotovelo, ele carregava duas espadas brilhantes, cintos estavam envolto à sua cintura, e um coldre suportava uma pistola presa em sua perna.

Ele lentamente embainhou uma das lâminas, levou a mão sobre a cabeça e puxou o capuz que vestia. Flagrei sua face imponente, com um olhar de curiosidade, olhos grandes e verdes como uva, lábios roxos e queimados pelo frio, a pele negra como a noite e uma barba rala e grisalha, assim como o cabelo. Ele enfiou a mão no bolso e dele tirou um pacote, pequeno e colorido, estendeu a mão com o pacote em minha direção.

Pegue”, disse ele. “Coma“, finalizou em um tom estranhamente imperativo, mas amigável.

Peguei o pacote, quando mais criaturas apareceram atrás de mim, ele puxou-me para trás de seu corpo, sutilmente me guiando pelo ombro. Desembainhou a espada e olhou para o lado, sorrindo. Passos largos e longos, seu corpo se chocou contra a onda de criaturas. O nômade empurrava algumas enquanto golpeava e disparava ponta pés em outras, com o prazer no olhar e nos movimentos, como se estivesse gostando do que estava fazendo.

Ele golpeou alguns monstros e embainhou as espadas, então puxou duas lâminas menores de sua cintura e atacou de forma ainda mais feroz, abraçando e levando ao chão dois ou três inimigos por vez, rasgando peles e gritando em ataques de fúria e brutalidade. Quando os últimos foram abatidos, ele levantou-se, imponente e com sangue alheio escorrendo de sua face, suas vestes e suas lâminas…

Clique aqui para ler a Parte II.

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2 Comments

  • Reply Beatriz fevereiro 11, 2016 at 4:48 pm

    Eu adoro contos sobre zumbis e o seu foi realmente sensacional. A forma como descreveu minuciosamente a passagem pelo túnel me fez experimentar a agonia da personagem. Parabéns (=

    Bjs

    alacazaam.blogspot.com

    • Reply ALBQRQ fevereiro 14, 2016 at 4:46 pm

      Oi Beatriz *.*

      Agradeço sua palavras, e eu sou apaixonados por zumbis tb <3

      Até a próxima 😀

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