Um Conto do Mar - A história de um marinheiro + Freebie
[in] nyctophilia

Um Conto do Mar

fevereiro 27, 2016

Um conto do mar

De supetão nuvens carregadas surgiram no horizonte.

Estávamos há dias caçando algo que sequer tínhamos certeza do que era. Uma baleia, julgava o capitão pelo tamanho do vulto que ele vira passar sob o navio enquanto avançávamos pelos mares, o Kraken, diziam alguns dos marujos entre dentes, tementes a ira de seus deuses e demônios, e a única certeza que eu tinha, era de que independente do que fosse, não estava sozinho.

A escuridão logo nos alcançou, e o que começou com uma garoa suave e fina, logo tornou-se uma tormenta. Os homens corriam para todos os lados, acatando ordens com toda a coragem que podiam, pois no fundo, em seus corações, todos temiam a morte diante da fúria do mar.

Gemidos podiam ser ouvidos antes do descanso, gemidos trêmulos e tementes.

As águas batiam contra o casco do navio como se desejassem surra a carcaça. Horas a fio se passaram até a tempestade dar uma leve trégua, e como nas noites passadas, um ruído familiar me despertou. Minha cabeça bateu contra a parede em um reflexo ao abrir os olhos e ver inúmeros espectros surreais, resultado de um corpo cansado, rum e a pouca iluminação que havia no alojamento.

O ranger das madeiras do casco confundiam e abafavam o ruído que me despertara, mas nas entrelinhas ainda era perceptível.

Soava como um canto tranquilo, apaixonado e carregava em cada nota a harmonia e paixão de uma canção angelical.

Com passos furtivos, avancei por entre os beliches e redes, onde os homens descansavam. Com os pés mergulhados na água da tempestade que invadira os aposentos, senti meu corpo congelar, mas continuei em direção a pequena janela mais adiante.

A melodia intensificou-se, juntamente com a tempestade. Os socos do mar sobre o casco ficaram ainda mais poderosos, e os homens logo começaram a despertar de seus sonhos.

Alcancei a janela, e sem esforço empurrei o vidro. Meu corpo sentiu a água gelada, empurrada pelo vento, e logo estremeci. Apertei os olhos tentando fitar o que havia no mar, além da escuridão e da solidão, então notei algo que me tiraria o sono por muitas noites.

A cada relâmpago que explodia nos céus, uma silhueta se destacava sutilmente em meio ao mar revolto e negro, uma silhueta feminina, com cabelos longos e soltos. Um cheio adocicado chocou-se contra minha face, misturando-se ao salgado das ondas.

Os homens gritavam atrás de mim, desesperados para que todos estivessem em seus postos, era claro que algo grave acontecia do lado de fora, mas eu estava em transe.

Um dos marujos me puxou pelo braço, gritando palavras aleatórias que se confundiam com a melodia que ainda soava em meus ouvidos. Fui forçado a voltar a realidade. Corri ao convés e uma explosão me jogou para trás. Além da tormenta e da melodia, ouvi o som de corpos e destroços sendo arrastados sobre a madeira.

Tentei me recuperar do choque, e quando pude observar a cena, flagrei um tentáculo do tamanho do nosso mastro se arrastando sobre o navio, carregando consigo os marujos aos prantos e gritos desesperados.

Levantei, mas logo fui atingido por um pedaço de viga, ela cravou em meu ombro me levando ao chão outra vez. Observei outros dois tentáculos erguendo-se e se chocando contra nós, e com movimentos seguidos, senti o tremo de um navio que estava prestes a afundar.

Um grunhido poderoso rasgou a noite, ocultando até mesmo os gritos aterrorizados dos homens, e logo um silêncio mortal se fez, a tormenta cessou e sendo possível ouvir apenas o ranger do navio afundando.

Minha vista ainda estava turva, minha mente atordoada, mas pude sentir meu corpo deslizar até mergulhar junto com tudo o que havia morrido ali, naquela tempestade.

Com exceção da dor, a única coisa que passava em minha mente era o arrependimento de tudo o que eu ainda não fizera. A morte não me assustava, mas sim o que eu não havia vivido. Porém, enquanto eu deixava meu corpo morrer sendo perseguido por destroços que afundavam sobre mim, algo puxou meu corpo com destreza. Fui carregado por tempo suficiente para perder a consciência e quando acordei, zonzo, enjoado e sem sentir quase nada em meu corpo gelado, notei estar coberto por um céu carregado de estrelas, um luar fascinante, e ao meu lado, com meia face submersa, flagrei um olhar curioso, olhos pequenos e de um tom púrpura, cabelos avermelhados e escuros, quase tanto quanto a noite.

Encarei a rainha dos mares até meus olhos arderem, e após uma piscada longa, não consegui mais abri-los. Então a melodia logo voltou, acompanhada pelo doce som do mar calmo, e logo imaginei estar morto.

#########
Ps:.
¹ Escolhi essa trilha sonora hipnotizante por ter sido a trilha que eu ouvia enquanto escrevia esse breve conto.
² A pintura também serviu de inspiração, espero que gostem, é um composição de aquarela sobre Canson.
³ Vou deixar a pintura aqui para download para quem quiser usá-la como BG <3 Espero que gostem do freebie 😀

um-conto-do-mar-ilustracao-aquarela

Clique sobre a imagem para fazer download

background-um-conto-do-mar-aplicado

You Might Also Like

10 Comments

  • Reply Vitor Costa fevereiro 28, 2016 at 1:04 am

    Excelente meu amigo! Todos os aspectos casam de forma esplendorosa: trilha sonora, ambientação e, claro, sua admirável pintura! É um trabalho de artista completo! Abração caro! Sempre vale a pena passar por aqui

    • Reply ALBQRQ março 27, 2016 at 5:21 am

      Oi Vi! Bom que gostou man ^^ E obrigado pela visita outra vez!

  • Reply Taís Kirsch fevereiro 28, 2016 at 4:27 pm

    Música + conto + pintura = perfeição ♥ um trio maravilhoso!
    Beijos!

    • Reply ALBQRQ março 27, 2016 at 5:23 am

      Ah Taís, obg <3

  • Reply Larissa Fonseca fevereiro 28, 2016 at 6:25 pm

    Amo todos os mistérios que envolvem o mar, histórias de embarcações, seres mitológicos marinhos…
    Ah, coisa mais linda esse desenho ♥

    • Reply ALBQRQ março 27, 2016 at 5:23 am

      Lari 😀 Bom que tenha gostado, e obg pela visita querida <3

  • Reply Adeisa Emanuelle fevereiro 29, 2016 at 6:41 pm

    Começou já no clímax e eu fui lendo sem parar, quase fiquei ser ar aqui, moço haha
    Nem vai ser preciso elogiar a arte, né?

    • Reply ALBQRQ março 27, 2016 at 5:24 am

      Bom que conseguiu se envolver com tudo, essa é a intenção principal lol
      Obg pelo carinho e pela visita <3

  • Reply Emilie julho 25, 2016 at 5:52 am

    quando meus olhos bateram nesse post, pensei que fosse resenha de livro. a parte quotada me enganou XD. anyway, essa coisa meio que “marinheiro/pirata,etc” ficou muito boa como fonte de inspiração. e ainda tem um kraken no meio. gostei. só achei que ficou um pouco solto esse final (ou foi apenas impressão minha). saudades daqui. {Emilie Escreve}

    • Reply ALBQRQ agosto 14, 2016 at 9:43 pm

      Mega atrasado, mas precisava responder esse… Era a intenção ficar solto, tipo, morreu ou não [?] rs E meeeeeu, sdds de tu por aqui tb <3

    Leave a Reply

    Translate »